Como a hipnose transformou a medicina em França (resumo de artigo científico)
How
Hypnosis Transformed Medicine in France
Petra Kittner
Artigo original em inglês: www.medscape.com/viewarticle/how-hypnosis-transformed-medicine-france-2026a1000mby
publicação: 1 Julho 2026
Resumo detalhado
O artigo descreve a forma como a hipnose se tornou um dos
temas mais controversos da medicina francesa no final do século XIX. Longe de
ser apenas uma curiosidade ou uma forma de entretenimento, a hipnose colocou em
causa questões fundamentais sobre a doença mental, a liberdade humana, a
responsabilidade criminal e os próprios limites da medicina.
Jean-Martin
Charcot e a Salpêtrière
O artigo centra-se na figura de Jean-Martin Charcot
(1825-1893), um dos maiores neurologistas da História e director do
Hospital da Salpêtrière, em Paris.
Actualmente, Charcot é recordado sobretudo por duas razões:
- pelas
suas contribuições decisivas para a neurologia, nomeadamente na descrição
da esclerose múltipla e de outras doenças neurológicas;
- pelo
estudo da histeria e da hipnose através de demonstrações públicas
realizadas perante médicos, estudantes e convidados.
Estas demonstrações tornaram a hipnose conhecida em toda a
Europa, mas também contribuíram para aumentar o fascínio e o receio que ela
despertava.
O acidente do leão
Em 1890 ocorreu um episódio que teve enorme repercussão.
Um hipnotizador itinerante levou uma jovem hipnotizada para
dentro da jaula de um leão durante um espectáculo em Béziers.
O objectivo era demonstrar que a rapariga se encontrava num
transe tão profundo que não sentiria medo nem reagiria ao perigo.
O resultado foi trágico:
- o
leão atacou-a;
- a
jovem morreu pouco tempo depois no hospital.
Para muitos médicos, este caso tornou-se um argumento
poderoso para proibir os espectáculos públicos de hipnose.
Na sua perspectiva:
- pessoas
sem formação médica estavam a utilizar uma técnica potencialmente
perigosa;
- o
sujeito hipnotizado encontrava-se completamente vulnerável;
- a
hipnose deveria ficar exclusivamente nas mãos dos médicos.
Hipnose e responsabilidade criminal
Ao mesmo tempo, outro caso mediático agitava Paris.
Uma jovem foi acusada de assassinar e roubar um oficial de
justiça juntamente com o seu amante.
A questão essencial passou a ser:
Teria actuado por vontade própria ou sob influência hipnótica?
O advogado Jules Liégeois, pertencente à Escola de
Nancy, defendia que:
- uma
sugestão hipnótica poderia permanecer activa durante dias ou semanas;
- uma
pessoa poderia cometer um crime sem recordar a hipnose nem a ordem
recebida.
Apresentou experiências em que indivíduos hipnotizados
pareciam:
- roubar;
- mentir;
- cometer
homicídios.
Contudo, o médico-legista Paul Brouardel discordou.
Defendeu que:
- era
necessário provar objectivamente que existira hipnose;
- também
era necessário demonstrar que o arguido era efectivamente hipnotizável.
Na sua opinião, a jovem não actuara devido à hipnose, mas
sim por submissão psicológica ao amante.
O tribunal aceitou esta interpretação e recusou considerar a
hipnose como circunstância atenuante.
O grande debate científico
O artigo descreve depois o conflito entre duas escolas
médicas que marcaram profundamente a história da hipnose.
A Escola da Salpêtrière (Charcot)
Para Charcot:
- apenas
determinadas pessoas eram verdadeiramente hipnotizáveis;
- essa
susceptibilidade revelava uma predisposição para a histeria;
- a
hipnose era uma forma artificial de provocar um estado histérico.
Charcot descreveu três fases da hipnose:
- letargia;
- catalepsia;
- sonambulismo.
Segundo ele, cada fase possuía sinais físicos objectivos
impossíveis de simular.
A hipnose era vista sobretudo como:
- um
instrumento de investigação científica;
- uma
forma de compreender as doenças nervosas.
A Escola de Nancy (Bernheim)
Hippolyte Bernheim defendia uma posição radicalmente
diferente.
Segundo ele:
- a
hipnose não era uma doença;
- era
uma capacidade normal do ser humano;
- praticamente
qualquer pessoa podia ser influenciada pela sugestão.
Esta visão abriu caminho ao uso terapêutico da hipnose para:
- aliviar
a dor;
- modificar
comportamentos;
- eventualmente
substituir a anestesia em algumas situações.
Mas levantava também uma questão inquietante:
Se todos somos altamente sugestionáveis, até que ponto somos realmente livres?
Charcot procurava uma explicação neurológica
O artigo salienta que Charcot não encarava a hipnose como um
simples espectáculo.
Tentava encontrar:
- alterações
físicas;
- mecanismos
cerebrais;
- relações
entre cérebro, corpo e mente.
Embora os conhecimentos da época fossem ainda muito
limitados, o seu trabalho representa uma das primeiras tentativas de
compreender neurologicamente fenómenos psicológicos.
A clínica transformou-se num palco
Um dos aspectos mais interessantes do artigo é a descrição
das famosas demonstrações da Salpêtrière.
As aulas de Charcot eram verdadeiros acontecimentos sociais.
Assistiam:
- médicos;
- estudantes;
- escritores;
- jornalistas;
- políticos;
- artistas.
Durante essas sessões, as pacientes:
- entravam
em transe;
- manifestavam
medo;
- obedeciam
a ordens;
- tinham
aparentes alucinações;
- por
vezes simulavam atacar ou envenenar outras pessoas sob sugestão.
Na época discutia-se intensamente se estes fenómenos eram:
- manifestações
autênticas da histeria;
- ou
comportamentos aprendidos perante um público entusiasmado.
Mais tarde, muitos investigadores concluíram que uma parte
significativa destas demonstrações resultava precisamente da sugestão criada
pelo próprio contexto clínico.
A medicina ajudou a criar o mito da hipnose
Este é talvez o argumento central apresentado pela
historiadora Katrin Schultheiss.
Os médicos não combateram apenas os hipnotizadores
populares.
Também contribuíram decisivamente para tornar a hipnose
famosa.
Através de:
- aulas
públicas;
- demonstrações
clínicas;
- artigos
científicos;
- cobertura
jornalística.
A medicina transformou a hipnose num fenómeno cultural.
Depois tentou controlar precisamente o fascínio que ela
própria ajudara a criar.
As proibições dos espectáculos públicos
Na década de 1880, vários países europeus começaram a
restringir as demonstrações públicas de hipnose.
O famoso hipnotizador Donato (Alfred-Édouard D'Hont)
tornou-se um dos principais alvos destas medidas.
Foram impostas proibições em diversos países:
- Áustria;
- Itália;
- Dinamarca;
- Alemanha;
- Espanha;
- Portugal;
- grande
parte da Suíça;
- posteriormente
também na Bélgica.
Outros países adoptaram regras diferentes:
- Inglaterra
permitia a hipnose apenas para fins científicos;
- Rússia
exigia a presença de três médicos durante a sua utilização.
Em França, contudo, nunca chegou a existir uma proibição
nacional.
A lei médica de 1892 regulou o exercício da medicina mas não
fez qualquer referência à hipnose.
Assim, os hipnotizadores leigos puderam continuar a actuar,
desde que não afirmassem tratar doenças.
Hipnose, superstição e ciência
Outro discípulo de Charcot, Georges Gilles de la Tourette,
defendia fortemente uma regulamentação rigorosa.
Receava que a hipnose pudesse ser utilizada:
- para
manipular pessoas;
- para
cometer crimes;
- para
corromper a moral pública.
Outros médicos preocupavam-se sobretudo com:
- crises
nervosas;
- ataques
histéricos;
- fenómenos
de sugestão colectiva.
Além disso, muitos associavam a hipnose:
- ao
espiritismo;
- ao
ocultismo;
- aos
milagres;
- ao
charlatanismo.
Tudo isto chocava com a imagem que a medicina procurava
construir de si própria como ciência racional.
Conclusão do artigo
O artigo conclui que a história da hipnose em França revela
uma profunda tensão entre ciência, espectáculo e cultura.
Charcot e os seus colegas procuraram integrar a hipnose na
medicina científica, estudando-a de forma sistemática. Contudo, as suas
próprias demonstrações públicas alimentaram o fascínio popular pelo fenómeno e
tornaram difícil separar investigação científica, sugestão psicológica e
espectáculo.
No final, a hipnose acabou por desempenhar um papel decisivo
na evolução da neurologia, da psicologia e da psiquiatria modernas, mas deixou
igualmente um legado de debates sobre sugestão, liberdade humana,
responsabilidade moral e ética clínica que, de diferentes formas, continuam
presentes até aos nossos dias.
Hypnos/A-GPHM - A formação de hipnoterapia
www.Hipnoterapia.pro
*A formar Terapeutas desde 2008
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