Parentificação
O que é a parentificação?
A parentificação acontece quando uma criança assume funções que pertencem aos pais. Em vez de receber cuidados, passa a cuidar.
Existem duas formas principais:
Parentificação instrumental
- Cuidar dos irmãos mais novos.
- Gerir tarefas domésticas excessivas.
- Assumir responsabilidades financeiras ou práticas da família.
- Tornar-se "o adulto da casa".
Parentificação emocional
- Servir de apoio emocional aos pais.
- Ouvir os problemas conjugais dos pais.
- Consolar a mãe ou o pai constantemente.
- Sentir-se responsável pela felicidade ou estabilidade emocional dos adultos.
Esta segunda forma costuma ser a mais destrutiva porque afecta directamente a construção da identidade e das fronteiras psicológicas da criança.
Porque é traumática?
A criança aprende algo como:
- "As minhas necessidades não importam."
- "Tenho de ser forte."
- "Não posso dar trabalho."
- "Sou responsável pelos outros."
- "Só mereço amor se for útil."
O problema não é apenas aquilo que a criança teve de fazer.
É também aquilo que lhe faltou.
Faltou:
- ser protegida;
- ser cuidada;
- poder errar;
- poder depender de alguém;
- poder ser criança.
Enquanto os seus pares aprendiam a receber apoio, ela aprendia a dá-lo.
Quais as marcas na vida adulta?
Muitas vezes encontramos:
- dificuldade em pedir ajuda;
- culpa ao dizer "não";
- necessidade de salvar os outros;
- relações codependentes;
- hipervigilância;
- perfeccionismo;
- exaustão crónica;
- incapacidade de relaxar;
- síndrome do impostor;
- sentimento de que o valor pessoal depende da utilidade.
São pessoas que frequentemente dizem:
"Eu trato de tudo."
"Não gosto de depender de ninguém."
"Sinto-me responsável por toda a gente."
"Não sei o que eu quero, mas sei sempre o que os outros precisam."
Existe um "trauma de parentificação"?
Embora não exista um diagnóstico formal com esse nome, muitos autores consideram a parentificação uma forma de:
- trauma relacional;
- trauma de desenvolvimento;
- trauma complexo (quando é persistente e cumulativo);
- negligência emocional.
O sofrimento não surge apenas pelos acontecimentos, mas pela inversão dos papéis familiares.
A criança foi transformada em cuidadora quando precisava de ser cuidada.
Como pode a hipnoterapia ajudar?
A hipnoterapia pode ser particularmente útil porque muitas das crenças associadas à parentificação são inconscientes e foram construídas muito cedo.
O trabalho costuma ocorrer em várias dimensões.
1. Identificar o "contrato invisível"
A criança fez conclusões como:
- "Tenho de tomar conta de todos."
- "Não posso falhar."
- "Não tenho direito a necessidades."
Em transe, essas crenças podem ser identificadas, questionadas e actualizadas.
2. Trabalho com a criança interior
Muitas vezes existe uma criança interna cansada, assustada e sobrecarregada.
A hipnoterapia pode facilitar experiências correctivas nas quais essa criança:
- recebe protecção;
- recebe validação;
- deixa de estar sozinha;
- pode finalmente largar responsabilidades que nunca lhe pertenceram.
3. Devolver responsabilidades
Uma intervenção muito poderosa consiste em ajudar a pessoa a devolver simbolicamente aos pais aquilo que carregou durante anos.
Por exemplo:
"Isto era teu.
Eu era apenas uma criança.
Não era minha responsabilidade salvar-te."
Este processo costuma gerar enorme alívio emocional.
4. Reduzir a culpa
Uma das maiores dificuldades destas pessoas é estabelecer limites.
Quando aprendem a dizer "não", surge culpa.
A hipnoterapia pode ajudar a dissociar:
- amor de sacrifício;
- cuidado de auto-anulação;
- responsabilidade de culpa.
5. Desenvolver uma nova identidade
Muitos sobreviventes da parentificação não sabem quem são para além do papel de cuidador.
A pergunta profunda deixa de ser:
"Quem precisa de mim?"
e passa a ser:
"Quem sou eu quando não estou a salvar ninguém?"
Grande parte da cura acontece aí.
Uma ideia importante
Aquilo que tornou estas pessoas tão competentes, empáticas e responsáveis é frequentemente a mesma ferida que as faz sofrer.
Aprenderam muito cedo a cuidar dos outros.
A cura não consiste em deixar de cuidar.
Consiste em acrescentar algo que faltou durante décadas:
aprender também a cuidar de si.
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