A Criança Interior na Caixa de Ferramentas do Hipnoterapeuta
Quando falamos de trauma infantil, pensamos frequentemente em acontecimentos extremos: abuso físico ou sexual, violência, abandono, perdas ou situações de grande perigo.
Mas o trauma infantil pode assumir formas muito mais subtis.
Pode estar na negligência emocional.
Na rejeição.
Na crítica constante.
Na humilhação.
Na comparação.
Na ausência de afecto.
Na imprevisibilidade emocional dos pais.
Na necessidade de ser «o adulto» quando ainda se era criança.
Na sensação de nunca ser suficientemente bom.
Pode também estar naquilo que a criança precisava e não recebeu.
Segurança.
Protecção.
Atenção.
Validação.
Disponibilidade emocional.
Liberdade para sentir.
Liberdade para errar.
Permissão para ser simplesmente criança.
E talvez por isso o trauma infantil nem sempre se apresente no consultório como uma memória clara de um acontecimento.
Pode apresentar-se como ansiedade.
Como necessidade de controlar tudo.
Como medo de abandono.
Como dificuldade em confiar.
Como necessidade permanente de agradar.
Como perfeccionismo.
Como dificuldade em estabelecer limites.
Como vergonha.
Como culpa.
Como uma enorme dificuldade em lidar com a crítica.
Como relações afectivas onde a pessoa repete, vezes sem conta, padrões que racionalmente sabe que não lhe fazem bem.
Ou como uma necessidade aparentemente inexplicável de estar sempre alerta, antecipando aquilo que poderá correr mal.
O que aconteceu não é necessariamente aquilo que hoje vemos
Uma das coisas que considero mais importantes no trabalho terapêutico com experiências infantis é compreender que o acontecimento pertence ao passado, mas aquilo que a criança aprendeu sobre si própria pode continuar no presente.
Uma criança que foi repetidamente criticada pode ter concluído:
«Não sou suficientemente boa.»
Uma criança que viveu abandono pode ter aprendido:
«As pessoas acabam sempre por me deixar.»
Uma criança que teve de cuidar emocionalmente de um dos pais pode ter aprendido:
«As necessidades dos outros são mais importantes do que as minhas.»
Uma criança que cresceu num ambiente imprevisível pode ter aprendido:
«Tenho de estar sempre atento.»
Uma criança que foi castigada por expressar emoções pode ter aprendido:
«Mostrar aquilo que sinto é perigoso.»
E estas conclusões podem acompanhar a pessoa durante décadas.
Não como pensamentos conscientes, necessariamente.
Mas como reacções.
Como emoções.
Como comportamentos.
Como escolhas.
Como relações.
Como aquilo a que muitas vezes chamamos simplesmente «a minha maneira de ser».
É aqui que entra a Criança Interior
Por isso considero que o trabalho da Criança Interior pode ter um lugar importante na caixa de ferramentas de um hipnoterapeuta.
Não porque exista necessariamente uma «criança» escondida dentro de cada adulto que precise de ser encontrada.
Mas porque esta linguagem permite estabelecer uma ponte entre o adulto que a pessoa é hoje e as experiências, necessidades, emoções e aprendizagens que ficaram associadas à sua infância.
E a hipnose pode proporcionar um contexto particularmente interessante para esse trabalho.
Porque não estamos apenas a falar sobre aquilo que aconteceu.
Podemos trabalhar de forma experiencial.
Podemos permitir que a pessoa contacte com emoções, imagens, sensações e significados.
Podemos trabalhar segurança.
Protecção.
Aceitação.
Validação.
Limites.
Auto-compaixão.
E podemos, sobretudo, introduzir no processo algo que naquela altura não existia:
os recursos do adulto que a pessoa é hoje.
Mas podemos trabalhar memórias traumáticas?
Claro que podemos.
Aliás, seria redutor utilizar o conceito de Criança Interior apenas para trabalhar auto-estima, afecto ou necessidades emocionais.
Pode ser uma ferramenta útil no trabalho com memórias traumáticas conhecidas e recordadas.
Mas aqui precisamos de fazer uma distinção fundamental.
Uma coisa é trabalhar uma memória traumática. Outra coisa é tentar recuperar uma memória que a pessoa não recorda.
Esta distinção é particularmente importante quando utilizamos hipnose.
Se a pessoa recorda um acontecimento traumático, podemos trabalhar a forma como essa experiência continua a afectá-la.
Podemos trabalhar a emoção associada.
As sensações corporais.
Os significados que foram construídos.
As crenças sobre si própria.
Os recursos que naquela altura não existiam.
A sensação de impotência.
O medo.
A vergonha.
A culpa.
A raiva.
E podemos ajudar a pessoa a estabelecer uma relação diferente com aquilo que aconteceu.
Mas devemos ter muito cuidado quando existe uma lacuna de memória e a intenção é utilizar a hipnose para descobrir «o que realmente aconteceu».
A hipnose não deve ser utilizada como uma máquina de recuperação de memórias.
A memória humana não é uma gravação vídeo guardada no cérebro à espera de ser reproduzida.
É reconstrutiva.
E a sugestão, sobretudo quando existe uma expectativa prévia de que «alguma coisa aconteceu», pode influenciar aquilo que a pessoa passa a recordar ou acreditar que recorda.
Por isso, trabalhar trauma não significa necessariamente procurar mais memória.
Muitas vezes significa trabalhar melhor a memória que já existe e aquilo que ela continua a produzir no presente.
Não precisamos de mudar o passado
Existe uma ideia que considero particularmente importante neste trabalho:
Não se trata de voltar ao passado para o mudar.
Trata-se de voltar a ele com os recursos que hoje temos e que naquela altura não tínhamos.
A criança não pode deixar de ter sido abandonada.
Não pode deixar de ter sido humilhada.
Não pode deixar de ter vivido aquela discussão entre os pais.
Não pode deixar de ter sentido medo.
Não podemos apagar aquilo que aconteceu.
Mas podemos trabalhar aquilo que essa experiência representa hoje.
Podemos permitir que o adulto que aquela criança se tornou olhe para ela de uma forma diferente.
Que a compreenda.
Que a valide.
Que a proteja.
Que reconheça aquilo que ela sentiu.
Que reconheça aquilo que ela precisou.
E, muitas vezes, que lhe diga aquilo que ninguém lhe disse.
A criança não precisa de uma nova história
Precisa, muitas vezes, de uma nova relação com a sua história.
Imaginemos uma pessoa que foi constantemente humilhada durante a infância.
Hoje, uma simples crítica pode desencadear uma reacção emocional enorme.
Racionalmente sabe que a crítica actual não é a humilhação do passado.
Mas emocionalmente alguma coisa acontece.
O corpo reage.
A vergonha aparece.
Surge a necessidade de fugir, atacar, justificar-se ou agradar.
O trabalho terapêutico não consiste em convencer aquela criança de que aquilo não aconteceu.
Aconteceu.
E foi doloroso.
Consiste, antes, em ajudá-la a reconhecer:
«Aquilo aconteceu.
Tu não tinhas os recursos para lidar com isso.
Não foi culpa tua.
E hoje já não estás naquela situação.
Hoje eu estou aqui.
Hoje podemos proteger-te.
Hoje podemos escolher de outra forma.»
É uma mudança profunda.
Porque não estamos a apagar a experiência.
Estamos a introduzir nela algo que antes não existia:
recursos.
Do acontecimento à crença
Há ainda uma dimensão que me parece particularmente importante para o hipnoterapeuta.
Nem sempre é o acontecimento, por si só, que continua a organizar a vida adulta.
É frequentemente a conclusão que a criança retirou desse acontecimento.
«Não sou suficientemente bom.»
«Não sou importante.»
«Não posso confiar.»
«Tenho de agradar.»
«Tenho de controlar.»
«Não posso mostrar fraqueza.»
«Se me conhecerem verdadeiramente, vão rejeitar-me.»
«Tenho de tratar de tudo sozinho.»
«As minhas necessidades não interessam.»
Estas crenças podem ter feito sentido naquele contexto.
Podem até ter sido formas inteligentes de adaptação.
Uma criança não tem os recursos cognitivos, emocionais e relacionais de um adulto.
Procura compreender o mundo com aquilo que tem disponível.
E, perante uma experiência dolorosa, pode concluir que o problema está nela.
É mais fácil para uma criança pensar «eu sou má» do que compreender a complexidade emocional dos adultos que a rodeiam.
É mais fácil pensar «tenho de ser perfeito para ser amado» do que perceber que os pais são emocionalmente indisponíveis.
É mais fácil pensar «tenho de controlar tudo» do que aceitar que o mundo à sua volta é imprevisível e inseguro.
O problema é que uma estratégia que foi adaptativa aos seis anos pode tornar-se profundamente limitadora aos quarenta.
A função do hipnoterapeuta
É aqui que, a meu ver, a Criança Interior pode ganhar um lugar muito interessante na prática do hipnoterapeuta.
Não como uma técnica mágica.
Não como uma explicação universal para todos os problemas.
E não como uma forma de procurar acontecimentos escondidos no passado.
Mas como uma ferramenta experiencial para trabalhar a relação entre passado e presente.
Para ajudar o cliente a reconhecer necessidades antigas.
Para trabalhar emoções que ficaram por integrar.
Para desenvolver recursos.
Para modificar significados.
Para fortalecer a segurança interna.
Para estabelecer limites.
Para desenvolver auto-compaixão.
E para permitir que o adulto possa, finalmente, ocupar um lugar diferente perante aquilo que viveu.
Porque talvez uma das experiências mais reparadoras não seja imaginar que alguém vem salvar aquela criança.
Talvez seja perceber que hoje existe um adulto capaz de cuidar dela.
E esse adulto somos nós.
No fundo, trabalhar a Criança Interior pode ser uma forma de ajudar a pessoa a deixar de viver o presente como se ainda estivesse a tentar sobreviver ao passado.
Não precisamos de apagar a história.
Não precisamos de inventar uma nova história.
Precisamos, muitas vezes, de ajudar a pessoa a perceber:
«Eu fui aquela criança.
Mas já não sou apenas aquela criança.
Aquilo aconteceu comigo.
Mas aquilo não precisa de continuar a acontecer dentro de mim.»
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