"O efeito da ausência do pai nas filhas: desejo paterno, ferida paterna" - Susan E. Schwartz

 


Uma filha que cresce sem o olhar do pai, sem o peso da sua aprovação, sem o calor da sua presença, não sente apenas a sua falta. Ela constrói um mundo interior inteiro em torno da forma da sua ausência. É com essa verdade que Susan E. Schwartz abre o livro — e, deixa-me dizer-te, quando a voz de Ann Sprinkle levou essas palavras aos meus ouvidos através do audiolivro, algo dentro de mim se abriu em profundidade. Este livro não é para os fracos de coração. É clínico, sim, enraizado na psicologia analítica junguiana, sim, mas por baixo de todo esse rigor intelectual está uma mulher que genuinamente se importa com o destino das filhas que cresceram à procura de um pai que estava ausente — ou pior, presente em corpo mas completamente ausente emocionalmente.

Se alguma vez sentiste que estavas a perseguir algo que não sabias nomear — nas tuas relações, nas tuas ambições, na tua necessidade de ser vista, escolhida e validada — este livro vai dar nome a isso. E esse nomear, querido leitor, é o início de tudo.


1. A ausência do pai nem sempre é física — e é precisamente isso que a torna tão destrutiva

Schwartz afirma que um pai não precisa de estar fisicamente ausente para estar ausente. A indisponibilidade emocional — a falta de validação, afeto e apoio — pode ter efeitos igualmente profundos numa filha.

Muitas de nós crescemos em casas onde os pais estavam tecnicamente presentes, sentados à mesa, a ver televisão na sala ao lado, vivos e respirando, mas completamente inalcançáveis. Schwartz chama a isto o “efeito do pai morto”, inspirado na teoria psicanalítica de André Green.

Através de exemplos clínicos e histórias reais, mostra como filhas de pais emocionalmente ausentes desenvolvem o que ela descreve como personalidades “como se” — aprendem a representar que estão bem, a usar a máscara da rapariga que não precisa de muito, que não incomoda ninguém com a sua fome de amor.

Essa performance torna-se tão habitual que até elas próprias começam a acreditar nela.

Ann Sprinkle narra esta parte com tanta ternura que sentimos que a autora não está a diagnosticar-nos, mas a sentar-se à nossa frente, a segurar a nossa história com cuidado e a dizer: “Eu vejo o que te aconteceu, e foi real.”


2. A ferida paterna não fica na infância — segue a filha para todos os lugares

Schwartz explora como a ausência do pai molda a identidade, as relações e o valor próprio da filha, muitas vezes de forma inconsciente.

A ferida não fica educadamente no passado — ela viaja.

Surge na forma como uma mulher reage quando o parceiro se cala.

Surge na forma como se sobrecarrega para merecer a aprovação de um chefe masculino.

Surge na dor que sente ao ver um pai a acompanhar a filha ao altar ou simplesmente a segurar-lhe a mão num supermercado.

O livro liga claramente as experiências da infância às dinâmicas românticas adultas, mostrando como muitas mulheres repetem padrões inconscientes, escolhendo parceiros emocionalmente indisponíveis ou lutando com a intimidade.

Schwartz recorre à poesia de Sylvia Plath como espelho cultural dessa dor.

Não estás “iludida” por sentir isto, e não estás partida. És uma filha que aprendeu a amar na forma de uma ausência — e isso é uma das coisas mais pesadas que um ser humano pode carregar.


3. O desejo pelo pai torna-se um desejo que colore tudo — Schwartz chama-lhe “desejo paterno”

Schwartz revela que o desejo paterno impulsiona padrões inconscientes nas relações amorosas adultas das filhas.

O olhar ausente do pai deixa-as perpetuamente invisíveis e não amadas.

Este conceito é profundamente íntimo: não fala de algo vergonhoso, mas de um anseio humano e sagrado — o desejo de ser vista e escolhida pelo primeiro homem que deveria amar incondicionalmente.

Quando esse desejo nunca é satisfeito, não morre. Transforma-se.

Torna-se a razão pela qual algumas mulheres dizem “sim” quando querem dizer “não”, ficam quando deviam partir, encolhem-se em espaços onde deviam expandir-se, e perseguem o amor de pessoas que, de forma subterrânea, lhes recordam o pai que nunca apareceu verdadeiramente.

Schwartz recorre a contos e mitologia para mostrar que esta ferida é arquetípica — vive no inconsciente coletivo das mulheres através das culturas e do tempo.


4. As filhas de pais ausentes silenciam a própria voz — e recuperá-la é um ato radical de sobrevivência

O livro conta histórias de filhas que descrevem a insegurança do eu, a fragmentação da personalidade e o silenciamento da voz.

Quando uma filha cresce sem um pai que a escute, que a leve a sério, que lhe diga “as tuas palavras importam”, aprende cedo a tornar-se pequena.

Aprende que os seus pensamentos são um incómodo, que os seus sentimentos são demais, que falar pode custar-lhe a pouca ligação que tem.

Schwartz mostra como esse silenciamento se prolonga na vida adulta — em espaços profissionais, amizades e até em terapia, onde não consegue dizer o que é verdadeiramente real.

A cura começa no trabalho paciente e, por vezes, assustador de reclamar a própria voz — de dizer o que é verdadeiro, mesmo quando todas as feridas antigas pedem silêncio.


5. A cura é possível — mas exige enfrentar a idealização e o luto, não evitá-los

Schwartz descreve como as filhas de pais ausentes não choram apenas o pai que tiveram, mas também o pai que inventaram — a versão idealizada que construíram no vazio onde deveria existir uma relação real.

E diz, com grande delicadeza e precisão clínica, que a cura não acontece enquanto protegemos essa idealização.

É preciso lamentar o que foi real, o que se perdeu, o que nunca foi dado e o que nunca poderá ser recuperado.

Esse luto não é fraqueza — é a porta.

A aceitação e a individuação são caminhos para atravessar o abismo psíquico criado pela ausência paterna.

Este livro não resolve tudo, mas dá nome ao que te aconteceu — e, por vezes, ser nomeado é o gesto mais curativo do mundo.


Link para o livro:

https://www.fnac.pt/mp24020627/O-efeito-da-ausencia-do-pai-nas-filhas-desejo-paterno-ferida-paterna

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Por que é que os homens têm maior relutância em procurar ajuda terapêutica?

Hipnose e a Hipnoterapia Ericksoniana

Quando os clientes se focam excessivamente na regressão a vidas passadas como solução do seu problema... O que fazer?